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ANTEPROJETO DOS PARQUES DO ENGENHO CENTRAL E DO MIRANTE
::Anteprojeto Arquitetônico Parque do Engenho Central e Mirante

O conjunto formado pelo Engenho Central e Parque do Mirante é "marca da terra" de Piracicaba.
Implantado na margem direita do Rio Piracicaba na mesma altura em que, na margem oposta, situa-se o centro urbano da cidade, tem ao seu fundo belíssima mata. Os volumes do Engenho em tijolo aparente oferecem uma visão impressionante e com a forte presença do rio, que logo após superar região de corredeira retoma a calma e espelha as luzes do outro lado, compõem um cenário que singulariza a paisagem urbana de Piracicaba. Quem por aqui passar, haverá de se lembrar.

O conjunto mantém-se com a integridade de quando foi desativado, como cidadela resistente às grandes mudanças por que passou o seu entorno nas últimas décadas.

Não nasceu como está. Pelo contrário. Ao longo de sua vida foi recebendo acréscimos, reformas, desenvolvimentos e guarda registro de várias de suas idades. Neste processo, coisas belas perderam-se e outras foram sendo incorporadas para formar aquilo que talvez corresponda a seu melhor valor: o conjunto, a cidadela.

Mas apesar de toda a grande potencialidade e significado que tem para a vida da cidade e da região, o Engenho Central encontra-se hoje em condições precárias. Mantém, é certo, um calendário de eventos - como a apresentação teatral da Paixão de Cristo, o Salão do Humor, a Festa das Nações além de outros acontecimentos ocasionais para os quais são realizadas adaptações em seus espaços. São tapumes, pinturas, enfeites, que muitas vezes são lá deixados até a próxima adaptação. Todos estes eventos recentem-se da falta de infra-estrutura do local.

Promover novos usos proporcionais à sua importância e dotar o Engenho Central dos equipamentos e da qualificação necessários à utilização racional e coordenada de seus generosos espaços são tarefas estratégicas que se impõem para a preservação e a revitalização deste maravilhoso bem que nos foi legado.
O Museu de Ciência e Tecnologia, o Museu de Artes Gráficas, o Museu do Papel e do Universo Gráfico, o Centro de Debates, o Centro de Comércio, o espaço destinado a grandes shows e bailes, o espaço para congressos e exposições, os cafés e restaurantes, cinemas e praças e o Parque do Mirante compõem um conjunto muito significativo e rico de atividades que se complementam.

O visitante que acessar o conjunto pelo estacionamento ou pela balsa proposta, localizados na ala sudoeste do conjunto poderá utilizar um pequeno veículo sobre trilhos que, movendo-se ao longo da barranca do rio, o levará até a praça da Chegada, ligada diretamente à ponte pênsil para pedestres.

Neste ponto, o edifício 14 se transformará no Centro de Acolhimento, que disponibilizará aos visitantes a programação e informações úteis, bilheterias, sanitários e um pequeno ambulatório médico. Uma maquete do conjunto, cartazes, projeção de vídeo e terminais de computadores apresentarão o Engenho e as atrações turísticas e culturais da região ao visitante. No mezanino se localizará parte da administração do conjunto. Atrás deste edifício, sobre a antiga base de alvenaria circular ali existente será construído um café com vista para o rio e se abrirá um caminho em deque de madeira, que levará ao "Véu de Noiva" - deságüe do canal que alimentava o Engenho.


Os edifícios 7A e 7B, os grandes galpões gêmeos, receberão parte significativa das atividades internas do Museu da Ciência. Ali será instalado o Cyber Theater - auditório com projeção em tela semi-esférica - e serão exploradas as questões ligadas ao sol, aos planetas, à energia. As cerca de oitenta janelas do galpão maior serão dotadas de moderno sistema de fechamento roll-on por painéis black out, mecanizado e operado por controle remoto, que permitirá o escurecimento quase total do seu grande espaço para que ali se desenvolva o espetáculo de luz e som com efeitos especiais e projeções em diversos planos e na grande esfera (cerca de 14m de diâmetro) que abrigará em seu interior o Cyber Theater. Celostatos estrategicamente localizados no teto trarão a luz do sol que será decomposta por prismas, estudada e registrada em tempo real e explorada sob diversos aspectos. Um sistema de passarelas e lajes de concreto armado aparente em diferentes alturas articulará todos os espaços, oferecendo pontos de vista e ângulos surpreendentes para a observação, tirando proveito da verticalidade de seu imenso vazio. Em pontos específicos estes mezaninos e passadiços criarão ligações com outros espaços.



O museu se expandirá para o edifício 5, que terá o trecho central de sua cobertura retirado para abrir e revelar a fachada posterior dos galpões gêmeos. Ali será implantado um playground educativo (a praça das Crianças), onde a diversão estará ligada à experimentação de conceitos apresentados em sua visita ao museu. Neste ponto, abre-se um espaço que será ocupado com um novo edifício: um auditório multiuso a que chamamos Centro de Debates. Dimensionado para cerca de 320 espectadores, será um espaço com recursos para receber as mais diferentes funções: cinema, teatro, espetáculos de música e dança, shows científicos, palestras, debates, vídeo conferências, etc. O trecho do edifício 5 que permanecerá coberto abrigará as atividades que exploram a fotossíntese e as questões da energia no mundo da biologia, da botânica, da geologia, dotado de um laboratório com pequeno anfiteatro para demonstrações. A pequena construção anexa fechada com a arcada de tijolos será equipada com computadores e um banco de dados, constituindo-se em centro de aprofundamento e de pesquisas complementares sobre os temas apresentados no museu. A antiga casa de força (edifício 5A) abrigará as questões ligadas à energia elétrica, inclusive com a instalação de uma roda d'água para geração de energia. No edifício 5B estarão as oficinas científicas, dotadas de equipamentos básicos para as mais diversas experimentações. Na antiga galeria de deságüe do canal que servia à roda d'água, após obras de recuperação e adaptação, será implantado o refeitório/restaurante das crianças visitantes.



O conjunto 6, 6A e 6B receberá, em seu bloco central, cobertura de vidro sobre a estrutura metálica existente recuperada e um jardim que reproduzirá um pedacinho da exuberância da Mata Atlântica original. De um lado, dois cinemas com capacidade para 238 e 195 espectadores. Do outro lado, um restaurante e bar ligados através de grandes aberturas na alvenaria ao jardim se expandirão ao exterior, com mesas na praça Central e nas ruas adjacentes.

No edifício 9/10 será implantado o Museu do Papel e do Universo Gráfico - MUG, que abrangerá toda a cadeia produtiva: da árvore e do meio ambiente até o papel, à tecnologia e à estética do mundo gráfico. A estrutura dupla da cobertura sugere a distribuição de um grande espaço expositivo, como uma "rua" interna, na primeira linha de tesouras metálicas da cobertura. Na outra linha de tesouras, em paralelo, uma laje dividirá o espaço vertical em dois pisos: embaixo as oficinas e a reserva técnica, em cima a biblioteca e a administração. Esta laje sairá para o espaço externo em forma de passadiços que farão ligação com o edifício 14-A, que hoje recebe o Salão Internacional de Humor que será incorporado e se transformará no Museu de Artes Gráficas. Além de ampla área expositiva e de reserva técnica climatizada e visitável para a guarda e manutenção do seu acervo, este espaço será dotado de auditório multiuso para 200 lugares que poderá ser compartilhado com seus vizinhos, através de seu acesso independente.


No vazio entre os edifícios 14-A, 9/10 e 6 se conformará a praça Central, núcleo do conjunto. Entre os robustos pilares de concreto remanescentes de antigas construções, alinhados em duas fileiras voltadas para o centro da praça, um palco de altura regulável será equipado com infra-estrutura para shows musicais, teatro, recitais, etc.

O edifício 8-A será recuperado e adequado para se transformar no centro de comércio da cidadela. Dotado de mezanino longitudinal, receberá boxes de venda de artesanato proveniente dos programas de reconhecimento e valorização do artesanato local, além de lojas de souvenires dos museus, livraria, loja de cds e dvds, revistaria, etc. O vizinho, edifício 8, será a Casa da Cachaça, café que apresenta este produto característico da região, em versões da produção artesanal, industrial e das pesquisas de desenvolvimento de qualidade hoje em curso.



A ala sudoeste do conjunto será destinada aos eventos, congressos, feiras. A grande praça de eventos, defronte ao conjunto de palcos proposto entre os antigos arrimos de alvenaria de pedras será equipada para receber diferentes usos. O arruamento proposto organizará os fluxos e distribuirá infra-estrutura de água, esgoto, energia, glp para atender às construções temporárias de eventos como a Festa das Nações ou o SIMTEC. Os edifícios ali existentes 13, 14-B, 14-C, 15 e 17 serão restaurados e adequados para servir de apoio a eventos dos mais variados tipos, como nas intervenções propostas para o edifício 14-B. A praça do fundador e do povoador fecha, no lado sudoeste, a cidadela do Engenho Central.


No trecho compreendido entre esta praça e a ponte do Morato deverá ser feito um trabalho criterioso de reposição paisagística, inclusive do lago que existia no local antes da implantação do sistema de tratamento de esgotos que deverá ser desativado. Dois novos acessos e uma via pavimentada e dimensionada para tráfego pesado deverão ser instalados para atender aos usos propostos da praça de eventos.

No outro extremo, no trecho entre a praça da Chegada e a ponte do Mirante, o parque do Mirante deverá ser inteiramente recuperado, receber nova iluminação, ter implantado um sistema eletrônico de controle e de segurança, receber novos usos (como escolas de esportes náuticos, academias de ginástica, etc.) para sair da situação de abandono em que se encontra e consiga atrair novamente a população para o desfrute de seus belíssimos caminhos e belvederes. O Parque do Mirante deverá estar integrado com o Engenho através de caminho a ser construído ao longo de seu bosque. O alambrado que o separa da cidade deverá ser retirado e novos acessos deverão ser criados, pela Av. Dr. Maurice Allain, hoje totalmente deserta. Propõe-se legislação de incentivo à ocupação da faixa de terreno remanescente entre esta avenida e a travessa Maria Maniero com edificações de uso misto, respeitando-se o gabarito de dois pavimentos de comércio e serviços na face voltada para a avenida, sob dois pavimentos de uso residencial voltados para a travessa Maria Maniero, que corre cerca de 6 m acima. A vegetação existente no local nos indica a necessidade de um trabalho de reconhecimento das espécies ali plantadas que mereçam ser preservadas e que, nos vazios ocasionados nas construções, possam gerar escadas em "piazzetas" que façam ligações entre as duas ruas. Essas sugestões visam trazer vida urbana, acessibilidade e animação à avenida, condições fundamentais para que o mesmo ocorra com o Parque do Mirante.

Neste anteprojeto sugerimos intervenções que definem o tipo de tratamento a ser dado ao patrimônio construído existente e o caráter das novas construções, necessárias aos usos indicados. Os velhos edifícios serão restaurados: suas paredes de tijolos aparentes terão as peças avariadas ou desgastadas substituídas por outras de características idênticas; suas estruturas e fundações receberão os reforços eventualmente necessários; seus pisos, caixilhos, coberturas, calhas, rufos e condutores serão recuperados com todo o rigor necessário à manutenção de suas características originais. Os novos elementos a serem construídos terão características arquitetônicas e tecnológicas que não deixarão dúvidas quanto à sua contemporaneidade. Identificáveis como novos, eles valorizam e autenticam o que é original e o que deve ser preservado.

Esta é a postura a ser adotada em todo o conjunto, em suas áreas internas e externas: um permanente diálogo entre a história e o novo que se interpenetram, se entrecruzam, criando harmonias e tensões.

O Engenho Central e o Parque do Mirante reviverão, proporcionando à população o acesso à natureza, à cultura, à ciência, à arte, ao entretenimento, à educação e, especialmente, à convivência.


Texto extraído do Anteprojeto de Arquitetura do Parque do Engenho Central e Mirante. Novembro 2004.
Autores: Francisco Fanucci
Marcelo Ferraz






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